Alergia alimentar múltipla pelas palavras de uma mãe

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Luciana Campos é a mãe do Pedro Henrique, um garoto lindo e saudável, que teve a sorte de vir nessa família maravilhosa, com uma mãe super dedicada e cuidadosa, que não mede esforços pelo seu bem estar e para controlar o quadro de alergia alimentar múltipla que ele tem.

A Luciana dispôs um pouco do seu tempo para dar uma entrevista para o Blog e contar um pouco da sua história, da descoberta da alergia, como o Pedro vive e orientar outras mães na descoberta precoce do problema.

Muito obrigada Luciana e Pedro Henrique por dividirem conosco um pouco da vida de vocês e espero que outras mães usem essa história como exemplo e lição de vida!

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Luciana, como foi sua gestação?

A gravidez do Pedro foi muito desejada e planejada, eu já tinha uma linda menina de 7 anos quando ele nasceu em 2009. Eu curti muito cada momento do barrigão e sinto saudades de estar grávida (risos). Foi uma gestação saudável e muito feliz!

O Pedro demonstrava sinais de alergia desde que nasceu?

Não. Até 3 meses ele foi um bebê muito tranquilo, aos 20 dias já dormia quase a noite toda, só acordava uma vez para mamar, tinha uma rotina diária e tudo estava indo bem, até que na consulta de 3 meses o pediatra disse que o Pedro não estava ganhando peso satisfatoriamente, receitando complemento com leite artificial.

Sinceramente, hoje, olhando pra trás, não sei onde estava com a cabeça pra seguir essa orientação, afinal, meu plano era seguir com aleitamento exclusivo até os 6 meses.

Pois bem, depois de três dias da introdução do leite artificial, numa manhã enquanto o trocava, percebi que suas mãos e pés estavam muito inchados, então, corri para o consultório do pediatra, que pra minha felicidade (ou não) ficava a três quadras de casa.

Examinou e disse que não era reação ao leite artificial, mas que poderia ser algo relacionado aos rins. Pediu alguns exames e que retornasse na semana seguinte, acreditem se quiserem. E olha que ele era bem conceituado na região.

Saí de lá e fui direto para o pronto-socorro, onde fizeram todos os exames possíveis e confirmaram que não havia nada errado com os rins, sendo que a pediatra plantonista afirmou que era uma reação alérgica, sugerindo a suspensão do leite artificial.

Suspendi imediatamente, mas o estrago já estava feito!

POR ISSO, MÃES, NÃO SE PRECIPITEM! Sigam seus instintos, pois as reações alérgicas são desencadeadas pelo contato com o alérgeno (substância capaz de desencadear uma reação alérgica).

Como foi a vida de vocês depois dessa reação?

Depois disso meu filho nunca mais foi o mesmo. Aquele bebê tranquilo se transformou em um bebê irritado, choroso, inquieto, com fezes cheias de muco e mal cheirosas ao extremo, não dormia mais, nem durante o dia e muito menos a noite, e eu, na minha santa inocência, achava que era fome, dor, manha, tudo, menos uma reação ainda ao leite, afinal já tinha parado com as mamadeiras e ele estava só no leite materno.

E assim foram passando os meses, eu estava cada vez mais estressada, fisicamente e emocionalmente acabada, troquei de pediatra, comecei a introdução sólida da mesma forma que fiz com minha primeira filha, mas nada do que fizesse adiantava, o Pedro continuava a chorar, não dormia direito, fezes horrorosas, era irritado demais.

O novo pediatra, outro que também era conceituado, descartou uma possível alergia ao leite, e eu segui com a minha alimentação habitual, cheia de leite e derivados, afinal, eu não sabia e nem fui orientada a fazer dieta de exclusão (tirando o leite e os derivados da minha alimentação), e continuei a amamentar meu filho.

Quando você percebeu que o problema ainda estava relacionado à alergia?

Quando ele estava com 7 meses, teve contato com um purê de batata que tinha sido feito com o leite e reagiu: apareceram placas vermelhas e inchaço pelo corpo minutos depois de ter consumido. Aí, eu mesma encostei chocolate no rosto dele e novamente inchaço, placas vermelhas, olhos lacrimejantes. Se o pai o beijasse depois de um copo de café com leite, em segundos lá estava o rosto com placas vermelhas e os olhinhos inchados.

Diante desses episódios e depois de muita insistência minha, o pediatra resolveu solicitar um exame de sangue (o rast para leite de vaca).

Quando o exame ficou pronto e entreguei para o pediatra, ele com a maior cara lavada, olha e diz: “é, realmente ele é alérgico”! Mas, mesmo assim, não me orientou fazer a dieta e eu continuei amamentando.

Mais uma vez pergunto: onde eu estava com a cabeça?

Em que momento você percebeu que o seu leite poderia fazer mal para ele?

Quando o Pedro estava com 1 ano e 4 meses, eu já estava sem dormir uma noite inteira há um ano, exausta, então, decidi por conta parar com a amamentação. Ele já se alimentava bem, e a única restrição era o leite de vaca. Introduzi o leite de soja e de um dia para o outro parei de amamentar.

Acreditem! Três dias depois a paz voltou a reinar em casa. Meu bebê tranquilo (não tão bebê assim mais), estava de volta, e pela primeira vez na vida, o Pedro fez um cocô bonito (risos – só mãe de alérgico sabe o que é isso).

Depois de um mês na soja, Pedro já não acordava mais a noite para mamar, e assim depois de um ano e dois meses, pude enfim dormir uma noite inteira.

Mas vejam, eu ainda não havia descoberto que o que prejudicava meu filho era o aleitamento materno sem a dieta de exclusão, pois eu ainda consumia muito leite e derivados e isso ia pro meu leite e meu filho reagia.

Quando Pedro estava com 3 anos, tudo parecia bem, ele era tranquilo e a dieta de restrição ao leite de vaca ia bem. Ele não era um menino que pedia o que os outros comiam, então, era fácil sair com ele para qualquer lugar, pois eu sempre levava a bolsa térmica com as coisinhas dele. Já frequentava a escola há mais de um ano, estava super saudável, os exames de rast indicavam apenas alergia à proteína do leite de vaca, e o controle semestral mostrava que o grau da alergia estava baixando.

Era bom demais pra ser verdade….

Nessa mesma época, ele começou a reclamar de dores abdominais depois de todas as mamadas e refeições, não estava comendo bem, não se interessava por comida de nenhum tipo, era triste demais vê-lo reclamando sempre de dores, dizia que a barriga doía, o coração doía, a garganta doía.

Procurei uma alergista e uma gastropediatra e fizemos alguns exames que não deram nada de novo, nenhum diagnóstico para as dores e meu pequeno continuava a sofrer.

Foi nessa época, que pela primeira vez, resolvi investigar por conta os sintomas: pesquisei sobre a alergia na internet, passei noites lendo muitas coisas, e descobri o quanto tinha feito de errado.

Foi aí que descobri que meu leite (sem a dieta de exclusão), era um vilão!

Como a internet e as redes sociais te ajudaram nesse processo?

Nas pesquisas, percebi o quanto havia sido mal orientada pelos profissionais que até então tinham passado pela nossa vida e encontrei grupos de apoio que ajudaram muito: um grupo no facebook, chamado “Amigas da Alergia”, que nem sei como cheguei até ele, só sei que fui aceita no grupo e foi a melhor coisa que podia ter me acontecido, fui muito bem recebida e orientada, fiz amigas virtuais que valem por uma mãe, e pela primeira vez estava entre pessoas que não me julgavam, que sabiam que todo o cuidado que tinha com o meu filho não eram neuras e nem frescuras (SIM, PORQUE AS PESSOAS ACHAM QUE TODOS OS CUIDADOS SÃO FRESCURAS).

Foi através desse grupo que consegui marcar consulta com uma das melhores gastropediatras de São Paulo que fez o diagnóstico correto! Isso já em 2012!

Meu filho precisou fazer endoscopia com biopsia e novos exames de rast. Para nossa surpresa, vieram os resultados e além da alergia à proteína do leite de vaca, ele também tinha desenvolvido alergia à proteína da soja, ou seja, ele não era alérgico a soja, mas depois de tomar por quase 2 anos, desenvolveu, e também alergia à clara do ovo.

Nova readaptação! Tivemos que trocar o leite, tirar tudo de soja e derivados, tudo que contém ovo, ou seja, uma nova dieta de exclusão, sem leite, sem ovos, sem soja e todos os seus derivados.

Para completar, a endoscopia mostrou que meu filho tem EoE, Esofagite Eosonofilica, que é uma inflamação no esôfago causada pelo aumento de eosinófilos (células de defesa do organismo), por isso as dores que ele dizia ser no coração. Na verdade, era a queimação causada pela esofagite, que requer um tratamento longo e que inclui endoscopia a cada 6 meses pelo menos.

Detalhe: ele tem que ser sedado para fazer a endoscopia.

Nessas minhas pesquisas infinitas pelas madrugadas afora, com muita insônia causada pela preocupação com os problemas de saúde do Pedro, encontrei outro grupo de mães de alérgicos, que hoje faço parte, o “Tips4APLV” , que significa: Dicas para Alérgicos à Proteína do Leite de Vaca, onde encontro muito apoio das outras mães, dicas e receitas adaptadas. É uma verdadeira família virtual (e real também). Sinto-me muito grata por fazer parte desse grupo, onde dividimos nossas tristezas, frustações, mas onde também encontramos muito amor, solidariedade, apoio, dividimos alegrias e vitórias de cada mamãe “tipete”.

Qual é o quadro atual do Pedro?

Atualmente seguimos a dieta de exclusão do leite, ovo e soja, e isso faz com que tenhamos uma qualidade de vida melhor, com a alergia controlada e sem sintomas, e com menos idas ao pronto-socorro.

Para manter a nossa sanidade e o convívio social do Pedro, tentamos participar de tudo: viagens, passeios, festas, mas, claro que ir numa pizzaria num sábado à noite está fora de questão, porém, ele não fica sem a pizza dele: fazemos em casa. E sempre, em qualquer lugar onde ele esteja, está também a sua “marmita”, uma bolsa térmica com tudo o que ele pode e gosta de comer.

O tamanho da bolsa muda conforme a rotina do dia: se vamos passar o dia fora ou só uma tarde na casa de alguém ou em algum lugar, um tamanho de bolsa e de coisas. Agora, imaginem o tamanho dessa bolsa pra uma viagem de dias. Tem que  ser mãe caracol e sair com a casa nas costas (risos).

A alimentação do Pedro é muito saudável e, consequentemente, a nossa também, porque procuro fazer refeições iguais, sem ter que separar o dele, fazendo para todos.

Muitas coisas que ele come, eu faço em casa e tenho dificuldades com os produtos industrializados e por isso apoio a campanha #poenorotulo de mães que se uniram para lutar por informações claras nos rótulos dos alimentos, transformar a rotulagem de alérgenos uma realidade, um rótulo claro e correto é bom pra todos, isso inclui também os diabéticos, os celíacos, as gestantes, pessoas com pressão e colesterol altos, entre outros.

O que esperar do futuro?

Em 5 anos, passamos por altos e baixos, momentos extremamente delicados. Tive vontade de sumir em alguns momentos, mas hoje somos mais conscientes, mais informados, mais atentos, e vamos seguindo, fazendo tudo o que está ao nosso alcance para que o Pedro fique bem, sem sintomas, esteja saudável e possa acima de tudo ser uma criança feliz, ser criança apenas.

Seguimos também esperando a cura. Não nos apegamos a datas para isso, porém esse é o objetivo, a cura pra ele e pra todas as crianças na mesma situação!

Eu pedi muito a Deus, e ele me mandou outro anjo. Agradeço pelo filho abençoado que tenho e sempre digo: Quem tem amor tem tudo!

Que dica você daria para as mamães que acabaram de ter seus bebês e para aquelas que têm qualquer suspeita de que os filhos desenvolveram uma alergia?

Eu diria que a amamentação não só no caso de alergia, mas em geral é o melhor que uma mãe pode oferecer a um filho nos primeiros anos de vida, mas isso tem que ser prazeroso e saudável para ambos, afinal mamãe feliz = bebê feliz! E cada mãe sabe seu limite.

Por isso se informe, siga sua intuição, seu coração, peça uma segunda opinião, terceira se necessário, mas tenha ao seu lado um profissional que te passe segurança e se preocupe integralmente com você e seu filho como seres humanos e não só como mais um paciente.

E se um caso de alergia aparecer, não se desespere! Tudo se acerta e você aprenderá dia após dia a conviver com ela.

É preciso lembrar que quando se trata de filho, não existe a opção “desistir”, então, o negócio é: “Aponta pra fé e rema!!!” (adoro essa frase!).

 

Luciana Campos
35 anos, casada, mãe da princesa Pamella, do príncipe Pedro Henrique e “boadrasta” da princesa Bianca. Cursou 3 anos do curso de psicologia, mas abdicou dele e do trabalho fora de casa para cuidar da filha, família e casa. Depois do nascimento do Pedro Henrique e os problemas com alergia, não teve mais intenção de retornar ao mercado de trabalho. Atualmente, trabalha com venda direta de sapatos femininos, mas o faz de casa, sendo um trabalho que não atrapalha sua vida como mãe, pois as crianças são suas prioridades.

9 COMENTÁRIOS

  1. Foi muito reconfortante ler este relato, pois os profissionais têm linha de pensamento diferentes também. Meu filho de 3 anos é alérgico ao leite, ovo (desde os 3 meses) e agora descobri à castanha (este é mais severo que os outros). Fiz dieta de exclusão alimentar para amamentá-lo, mas só aguentei até o 6 mês. Sempre tive dúvidas em qual “teoria” seguir… Depois de ler este seu relato, fico mais aliviada por estar no caminho certo! Obrigada!

  2. Adorei seu depoimento pq descobri ha pouco tempo q minha filha tem alergia alimentar ms ainda estou descobrindo a quais alimentos…já passei por dias de muito desespero e vontade de sumir maa como vc disse nao e vemos desistir…obg

    • Fico muito feliz quando sei que um texto aqui do Blog ajuda uma mãe! Obrigada por comentar e desejo que tenha muita sorte, serenidade e paciência para lidar com isto. Bjo grande.

  3. Muito importante dividirmos nossa luta contra esse mal que tanto atrapalha a qualidade de vida dos nossos pequenos.
    Meu príncipe Davi sofre também de Alergia alimentar (proteína do leite, frutas vermelhas, carne vermelha e frutas cítricas). Gostaria de saber o nome ou contato dessa gastropediatra que a Luciana mencionou na entrevista. Obrigada

    • Oi Dayane. Uma luta mesmo! Atualmente, o Pedro faz tratamento com a Dra. Ariana. Ela é de Campinas. O tratamento é muito diferente, mas os resultados são fantásticos! Bjs.

  4. Nossa me vi nesta situação meu filho teve os mesmos sinto.as do Pedro inclusive na biópsia da endoscopia eu vivo correndo atrás de um profissional que na boa não encontrei nenhum capacitado vou pedir a minha inclusão nesses grupos que ela informa

  5. Olá… minha filha está com 7 meses e desde seu 1o.mes de vida estamos investigando alergias. A primeira certeza foi APLV (pois meu filho de 3 anos já tem o diagnósticos e só de eu tirar o leite da minha alimentação percebemos a melhora dos sintomas dela..), depois com tantas desconfianças, após observar minha alimentação e possíveis reações nela e exames de sangue, hoje sabemos que tem alergia da proteína do leite, clara do ovo, gema do ovo, sementes oleaginosas, soja, banana e trigo. Uma recomendação é que pare com a amamentação e ela passe a consumir soja. Isso não estava nos meus planos (rsrsrs) mas estou vendo que talvez seja a melhor opção. Como foi mencionado na entrevista com a mamãe do Pedro, ainda irei em busca de uma segunda e terceira opiniões. Foi muito bom ler o relato desta mãe. Grande abraço.

    • Jociana, obrigada pela mensagem. Espero que logo você encontre melhores alternativas para sua filha. Para você saber, o Pedro hoje já perdeu uma boa parte da alergia e já consome alimentos que antes não consumia. Beijos.

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